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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Cerro Santa Lucia, Santiago

O que fazer em um final de tarde em Santiago, sabendo que no verão temos luz até as 21hs? Subir no Cerro Santa Lucia! Parece que ali se fundou a cidade de Santiago de Nueva Extremadura, em 1541. Trata-se de um monte em pleno centro da cidade, mais baixo do que o San Cristobal, mas alto o bastante para nos  brindar com uma linda vista.
Para subir os quase setenta metros até o topo, é preciso um pouco de perna, pois é uma escada atrás da outra.
Uma vez lá, o que fazer? Nada. Pensar na vida, olhar a cidade num 360º, tomar um picolé. É um parque vertical, algo assim.





Na saída, vale passar pelo Centro de Exposição e Venda de Arte Indígena. Uma tienda relativamente pequena com um belo artesanato. O par de brincos Mapuche que comprei que o diga.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Ainda no Chile: a memória difícil

Em 1995 conheci Berlim. O muro havia sido derrubado há poucos anos, a cidade parecia um canteiro de obras, e eu ali no Hotel Hilton, chiquérrimo em meio ao que tinha sido a parte comunista da cidade. Findo o congresso, entrei num tour pedestre por aquele lado da cidade. A guia era uma estudante de história e nos conduziu por edifícios com marcas de bala, ruínas, pequenos memoriais que lembravam a ausência de pessoas ou de livros - este, defronte ao que foi um dia uma biblioteca incendiada pelos nazistas. Quando chegamos a uma escultura de Käthe Kollwitz, uma mãe com o filho adulto morto nos braços, chamada pelos berlinenses de "Pietà", eu já estava rendida. Era um domingo ensolarado e eu voltei pro hotel totalmente perturbada. Anos depois, foi o que de mais forte ficou de Berlim.
Isso voltou à baila em Santiago depois de visitar o Museo de la Memoria y de los Derechos Humanos.
Inaugurado em 2009 pela presidente/a Michelle Bachelet, é um espaço com o objetivo de dar visibilidade "às violações dos direitos humanos cometidos pelo estado chileno entre 1973 e 1990". Corajosa, a Michelle. Declarou-se pró-escolha no tema do aborto, e isso em um país católico. E encarou esse passado sombrio. Alô, Dilma! Uma modesta eleitora pede que você olhe pra Michelle nesses dois itens!!
O acerto do museu começa em sua localização. É praticamente dentro de uma estação do metrô. Quem salta na estação Quinta Normal quase que cai na entrada no museu. E a entrada é gratuita. Ou seja, sem desculpa: está lá pra ser visitado.
Logo ao entrar, um painel com diversos exemplos de comissões de verdade e medidas reparatórias: da Alemanha aos países africanos, o que tem sido feito para se minimizar e conhecer os erros do passado? Quem não está no painel? O Brasil, por omissão do museu ou porque não enfrentamos direito ainda esse fantasma recente?
Daí pra frente a visita não é pros fracos. O museu é basicamente mídia e logo na primeira sala temos um filme da tomada do Palácio de La Moneda em 11 de setembro de 1973. Para quem havia visitado o palácio um dia antes, foi de lascar vê-lo incendiado. Mas pior, de cortar o coração foi ver dois soldados trazendo o corpo de Salvador Allende enrolado num cobertor, como um indigente. São muitos os vídeos e imagino que alguns tenham ficado escondidos por anos. Por conta do entusiasmo da eleição do Allende, havia muitos estrangeiros em Santiago (como já mostraram os filmes Missing e A culpa é do Fildel, de Gavras pai e Gavras filha). E muitos filmaram o que se passou naquele dia sem saber bem o que estava rolando. Há um cinegrafista que anuncia que as tropas estão chegando possivelmente para defender o presidente...
O discurso final do Allende é de quem sabe que vai morrer, tocante, emocionado. Mas o que mais surpreende são os discursos dos militares. No primeiro pronunciamento do golpe, ouvimos que o Chile precisa da ajuda de todos menos, claro, dos marxistas! "Pura broma", ouvi do meu filho e das minhas sobrinhas. Parece mesmo broma (piada), mas em 1973 isso equivalia a uma sentença de morte. Como parece hoje piada saber de uma conhecida dos meus pais que foi ao enterro do Neruda (que infartou 12 dias depois do golpe) e até hoje não voltou. Pois é.
Foi legal visitar o museu acompanhada de jovens entre 16 e 21, que ficaram bastante impressionados. Eu fiquei e não sou chilena, nunca fui presa ou torturada, não perdi ninguém por política. E saí de lá com um nó na garganta do tamanho de um elefante. Saímos todos. Imagino o que é a visita para quem de fato sofreu o golpe, se recolheu ao toque, teve alguém desaparecido no estádio. De lascar.
"The past is a foreign country: they do things differently there", escreveu L.P. Hartley em um livro que eu adorava quando adolescente. Sim, o passado recente pode ser mesmo um território estranho, mas vale a visita. Nem que seja pra respirar fundo ao sair e olhar o céu.
As imagens são de internet, pois não pude fotografar nada no museu.
Ah! E a arquitetura é bárbara.







terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Roberto Matta no La Moneda

Não se pode passar pelo México sem um périplo Diego-Frida, tampouco pela Colômbia sem olhar o Botero. Como será para o Brasil? Eu diria sempre Tarsila, mas diversos amigos discordariam, diriam que sou embriagada pelo modernismo etc. Pode ser. Alguns dirão Portinari....
Ainda irei pra Montevideo só pra ver as obras do Torres-Garcia, que aliás acabo de ver na Pinacoteca em São Paulo mesmo.
Será que essa idéia de que a um país corresponde um pintor vale mesmo para a América Latina? Ou é o nosso desconhecimento dos menos laureados? Pode ser, pois seria ridículo, por exemplo, dizer que a França é a terra de Manet, Monet ou David.


Isso tudo pra dizer que gostei de ter visto uma linda mostra do Roberto Matta no Centro Cultural Palácio de La Moneda. Matta, se não tem a aura popular e pop de uma Frida ou um Botero - acho que o personagem que faz isso no Chile não é um pintor e sim um poeta, Pablo Neruda -- é um orgulho nacional, o artista que obteve reconhecimento na Europa.
O bacana para quem como eu pouco o conhecia foi ver juntas obras espalhadas por coleções particulares e por diversos museus como Tate de Londres, Centro de Arte Reina Sofía e Thyssen-Bornemisza de Madri, Rufino Tamayo do México, Nacional de Belas Artes da Venezuel,; Herbert F. Johnson e Lucid Art Foundation dos Estados Unidos, Stedelijk Museum da Holanda e Casa de las Américas de La Habana.
O nome da exposição, Matta 11-11-11 remete à data de nascimento do pintor e confere um quê de número mágico, cabalístico, surreal.
Roberto Antonio Sebastian Matta Echaurren, para muitos o último dos surrealistas, foi para Paris nos anos 1930, em meio a turbulências políticas em seu país - como se a Europa estivesse bem calminha - e uma vez lá colaborou com Le Corbusier, aproximou-se do consul chileno na Espanha, o poeta Neruda e com ele, de Garcia-Lorca. Daí pra André Breton, Salvador Dali e companhia limitada foi um passo e ele, pelo que consegui apreender, viveu aqueles anos retratados por James Clifford em seu delicioso texto sobre o "surrealismo etnográfico".
Décadas mais tarde, como tantos outros, apoiou Salvador Allende.
Algo de profundamente chileno, de sua passagem longa pela Europa, de um período novaiorquino,  mais uma pegada política libertária e maravilhosamente erótica: tudo isso está presente nas telas gigantescas, nos desenhos e esculturas expostos no la Moneda.
No dia em que cheguei em Sangiago o gramado do palácio ainda estava inerditado, represália às manifestações mais do que corretas dos jovens e estudantes. Tempos bicudos, vivemos aqui e lá, hein? Ainda bem que quando voltei para a exposição as grades já tinham disdo removidas, ou seria um contraste insuportável entre a paralisia no lado de fora e a energia que, do lado de dentro, as obras emanavam.
Interessante foi, depois de passar pelo Palácio de La Moneda, visitar o Museo de la Memoria y de los Derechos Humanos. Mas esse fica pra depois.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Atravessar a cordilheira




Ainda hei de fazer isso de carro. Mas mesmo voando, nunca me cansarei de admirar a paisagem bruta dos Andes!